Como se chega a ser santo? Explicamos o processo de santificação

Como se chega a ser santo? Explicamos o processo de santificação

O processo de santificação é composto por várias etapas e desenrola-se ao longo de um percurso prolongado. É assim que alguém se torna santo

Como se torna santo? Parece uma pergunta simples, mas não o é. O caminho da santificação é longo, dividido em várias etapas, e envolve uma análise profunda da vida da pessoa em questão, bem como dos acontecimentos que se seguem à sua morte. Resumindo de forma prática, podemos dizer que, para alguém ser elevado ao estado de santidade, é necessário:

  • ter falecido,
  • ter realizado um milagre,
  • passar pelo processo de canonização.

No entanto, para compreender melhor, é importante lembrar que, para a Igreja Católica, todo o batizado é santo. Neste contexto, “santo” significa abençoado, santificado, membro efetivo da Igreja, entendida como a Comunhão dos Santos, da qual fazem parte todos os batizados, vivos e falecidos.

Quando falamos de Santos, pensamos sobretudo nos homens e mulheres que escolheram viver segundo o exemplo de Jesus, obedecendo ao Seu mandamento do amor, conduzindo uma vida iluminada pela Graça divina, praticando as virtudes cristãs de forma heroica ou morrendo pela própria fé.

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Historicamente, a palavra“Santo” indicava algo ou alguém ligado à divindade, inviolável, vindo do latim sanctus, particípio passado de sancīre, ou seja, protegido por uma lei ou sanção. Com o tempo, na Igreja Católica, passou a significar digno de devoção, venerável, equivalente a estar em Cristo.

Nos primórdios do Cristianismo, todos os cristãos batizados eram considerados Santos, e os verdadeiros Santos eram aqueles capazes de realizar milagres. Com as perseguições contra os cristãos surgiram os Santos Mártires, que morriam pela fé.

Durante a Idade Média, afirmaram-se os Santos Confessores, que viveram e testemunharam a fé ao longo de toda a vida com palavras e ações.

Com a Reforma, a veneração dos Santos tornou-se um ponto de divergência entre católicos e protestantes, uma vez que estes últimos rejeitavam qualquer autoridade religiosa fora de Deus, considerando a devoção aos santos uma forma de idolatria.

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Já mencionámos dois modelos diferentes de santidade e, resumindo, podemos afirmar que existem dois tipos de santos:

  • Confessores, testemunhas da própria fé;
  • Mártires, perseguidos e, por vezes, mortos por não renunciarem à sua fé, mesmo perante a morte.

Quanto aos mártires, é importante esclarecer que nem sempre é necessário morrer para demonstrar o amor a Deus. A Igreja reconhece o Mártir branco, que sofre perseguição pela fé sem ser morto; o Mártir verde, que escolhe a privação, o jejum e a solidão; e o Mártir vermelho, que morre em nome de Deus. Ao longo dos séculos surgiram ainda outras categorias de Santos: virgens, doutores da Igreja, educadores, entre outros.

Desde 2017, para além dos confessores e mártires, também podem ser canonizados aqueles que ofereceram a própria vida, sacrificando-se pelos outros.

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Vejamos, então, como se torna santo.

Qual é a diferença entre santificação e beatificação?

Fala-se frequentemente de Santos e de Beatos, mas não é a mesma coisa. O título de Servo de Deus é atribuído ao fiel católico de cuja causa de beatificação, santificação ou canonização se iniciou o processo.

Um beato é aquele que é reconhecido como tendo ascendido ao Paraíso através do processo de beatificação, devido às suas ações extraordinárias e à devoção a Deus fora do comum. Como beato, é admitido à presença de Deus e pode interceder pelos fiéis que o invocam. Contudo, não lhe é permitida a veneração universal, sendo a devoção limitada às igrejas que reconhecem oficialmente o culto desse beato. No início do processo de beatificação está uma causa promovida e apoiada pelos fiéis. Antes de tudo, surge a fama de santidade em torno de uma pessoa, muitas vezes iniciada por aqueles que conheceram o aspirante a beato, e que pode levar à abertura do processo de beatificação.

O Santo é aquele a quem a Igreja reconhece a veneração universal, através do processo de canonização, que se prolonga durante anos. Ao longo deste processo, devem ser comprovados os milagres atribuídos ao Santo e avaliadas detalhadamente as suas ações em serviço de Deus e da Igreja. Só depois de declarado santo poderá ser oficialmente venerado a nível universal.

Para distinguir canonização de santificação, podemos dizer que a canonização é a declaração oficial de santidade de um cristão falecido, enquanto a santificação é o processo completo que reconhece um candidato primeiro como servo de Deus, depois venerável, depois beato e, finalmente, santo. Na prática, os dois termos são frequentemente usados de forma intercambiável.

Quem decide a santificação?

Antigamente, bastava a aclamação popular para tornar um homem santo ou uma mulher santa. Mais tarde, a Igreja decidiu regulamentar o processo através de um código específico definido pelo direito canónico. É a Congregação para as Causas dos Santos que gere os processos de beatificação e canonização. A sua sede situa-se num edifício próximo da Praça de São Pedro. No entanto, a decisão final cabe ao Papa, em virtude da sua infalibilidade, definida como Dogma em 1870. A constituição dogmática Pastor Aeternus estabelece que são infalíveis “por si mesmas e não pelo consenso da Igreja” as definições sobre “fé e costumes” proclamadas pelo Papa ex cathedra, ou seja, como doutor ou pastor. O Papa pode também recorrer à chamada equipolência, tanto em beatificação como em canonização, reconhecendo, através de um decreto, um culto espontâneo existente há tempo, mesmo sem a realização de investigações formais ou a confirmação de milagres.

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O processo de santificação

O direito canónico estabelece várias etapas para o processo de santificação. O candidato deve ser proclamado primeiro Servo de Deus, depois Venerável, em seguida Beato e, por fim, Santo. Tudo começa com a já mencionada fama de santidade, reunindo documentos, testemunhos e opiniões de pessoas comuns que conheceram o candidato e podem confirmar que a sua vida foi dedicada às virtudes cristãs e que a sua morte foi edificante.

Fase Diocesana: Servo de Deus

Esta é a fase que se segue à abertura oficial do processo de santificação.

É nomeada uma pessoa específica, o Postulador, pelo Bispo, com a responsabilidade de recolher documentos e testemunhos. O Postulador funciona como uma espécie de advogado do candidato a santo, incumbido de demonstrar a heroicidade das virtudes que o Servo de Deus terá praticado ao longo da vida de forma extraordinária.

Depois de examinados os documentos e avaliados os testemunhos recolhidos, o Bispo decide se submete ou não a causa de canonização a um tribunal, onde o Postulador confronta o Promotor da Justiça, responsável por questionar a candidatura. A ambos é atribuída uma Comissão Histórica, encarregada de recolher os documentos, e dois Censores Teológicos, responsáveis pela sua análise. Esta primeira fase termina com uma sessão de encerramento, durante a qual todos os testemunhos são selados.

Fase Romana: de Servo de Deus a Venerável

O material recolhido na fase diocesana é enviado para Roma, para o Dicastério para as Causas dos Santos. Aqui, o postulador é auxiliado na elaboração da Positio, o volume que reúne as provas recolhidas e que demonstra a fama de santidade do Servo de Deus. A Positio é analisada por um grupo de teólogos e por uma Comissão de historiadores, sobretudo quando o candidato morreu há muito tempo e já não existem testemunhas diretas da sua vida. Se a avaliação for positiva, o processo segue para o Dicastério e, caso os Cardeais e os Bispos que o compõem aprovem o parecer apresentado, o Papa declara o Servo de Deus Venerável e promulga o decreto sobre a heroicidade das virtudes ou sobre o martírio. Este decreto confirma que o candidato viveu as três virtudes teologais, fé, esperança e caridade, e as quatro virtudes cardeais, prudência, justiça, fortaleza e temperança, em grau heroico, ou que sofreu o martírio.

A Beatificação: de Venerável a Beato

Devem passar pelo menos cinco anos após a morte do candidato para que este possa passar do estado de Venerável ao de Beato. Os mártires alcançam esta condição automaticamente; para os restantes, é necessário que seja reconhecido um milagre, geralmente uma cura extraordinária confirmada por uma Comissão Médica composta por especialistas crentes e não crentes. Posteriormente, os Bispos e os Cardeais confirmam o milagre e o Papa proclama o Venerável Beato. Com esta nova condição, o seu nome passa a integrar o calendário litúrgico da respetiva diocese, onde pode ser oficialmente venerado.

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A Canonização: de Beato a Santo

Se a um Beato for atribuído um segundo milagre, ocorrido após a beatificação, ele pode aspirar à santidade. Inicia-se então uma nova verificação canónica e um novo processo, no qual o Postulador sustenta a causa da santidade do candidato perante o Promotor da Fé, também conhecido como “advogado do diabo”, designado pelo Dicastério para questionar e examinar a causa.